O curioso canto dos carregadores de piano

Sergio Chnee

7/3/20262 min read

Martin Braunwieser foi um maestro, compositor, flautista, violista e musicólogo austríaco, radicado no Brasil que teve um papel fundamental no resgate do Canto dos Carregadores de Piano no Recife em 1938. O registro dessa manifestação histórica ocorreu durante a Missão de Pesquisas Folclóricas, uma expedição científica idealizada por Mário de Andrade.

Nascido em Salzburg, terra natal de Mozart, Braunwieser formou-se no prestigiado Mozarteum daquela cidade. Durante a I Guerra Mundial, boa parte da Europa passou fome, incluindo a Áustria. Martin emigrou então para Atenas onde foi ser professor no Conservatório Odêion. Lá, conheceu a pianista russa Tatiana Kipman. Casaram-se e vieram para o Brasil em 1928, naturalizando-se brasileiro dez anos depois.

Foi um grande parceiro em projetos com Mário de Andrade e Villa-lobos. Reconhecido por sua sólida bagagem técnica, ele foi convidado por Mário de Andrade para dirigir o Coral Popular em São Paulo.

Em 1938, foi nomeado o diretor musical e um dos chefes de campo da Missão de Pesquisas Folclóricas, caravana que viajou pelo Norte e Nordeste registrando manifestações populares ameaçadas de extinção.

Na Recife do século XIX e início do século XX, o piano era o maior símbolo de status burguês. Muitas famílias abastadas possuíam o instrumento, objeto de desejo das moças casadoiras. Como não havia transporte automotivo adequado para cargas sensíveis, grupos de homens negros e mulatos transportavam os pesadíssimos instrumentos nas costas pelas ruas da cidade.

Os carregadores entoavam cantigas de trabalho em coro sincopado durante o transporte. O canto servia estritamente para marcar o passo coletivo. Se alguém andasse fora do ritmo, o peso desequilibraria, podendo causar acidentes graves ou desafinar e eventualmente danificar seriamente o instrumento.

Foi então que um fato curiosíssimo se deu: em depoimentos posteriores sobre a viagem a Recife, Braunwieser, meu tio-avô, relatou um desafio técnico intrigante, o qual seja que os carregadores não conseguiam cantar sem carregar o piano. O canto estava condicionado ao esforço físico real e à memória muscular do trabalho.

Assim, para conseguir capturar o áudio original, Braunwieser teve que segurar o microfone do pesado equipamento de gravação da época e caminhar lado a lado com os trabalhadores pelas ruas enquanto eles faziam o frete.

No entanto, esse registro fonográfico tornou-se um dos documentos mais raros e valiosos da etnomusicologia brasileira. Ele imortalizou uma profissão urbana desgastante que desapareceu por completo na segunda metade do século XX.

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